segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O fascismo dos "meninos do Rio"

Gilson Caroni Filho - Jornal do Brasil

O que há em comum entre uma moradora de rua agredida a socos e pontapés no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por três homens de classe média que a acusam de quebrar o retrovisor do carro, e Vítor Suarez da Cunha, jovem estudante brutalmente espancado ao tentar proteger um mendigo que apanhava de cinco delinquentes no bairro Jardim Guanabara, na Ilha do Governador? Ambos foram vítimas de um estrato social que tem como traço ideológico funesto a recusa da cidadania.

Em menos de uma semana, a violência de um segmento incapaz de distinguir o público e o privado, que tem na venalidade uma de suas marcas, que trata a rua como prolongamento da casa e do quintal, desconhece direitos sociais e políticos, menospreza a condição humana dos que não pertencem à sua geografia social, reiterou, em pontos do estado do Rio de Janeiro, o caráter fascista que lhe é inerente.

Para eles, a liberdade se reduz ao ato de escolher entre várias marcas do mesmo produto, e a felicidade é o fim de semana em família esvaziando shopping centers, o consumo do Natal e o Réveillon em uma boate "superluxo". A protegê-los, vigias, olhos eletrônicos, cães de guarda, grupos de extermínio e a polícia violenta que conhecemos, protetora de “gente de bem”. Quando se lançam em busca das ilusões perdidas, dão início a uma busca feroz, mostrando uma força ideológica assustadora.

Num tempo em que pessoas têm sua condição humana aviltada, morrendo como moscas, fatos como estes não podem, após algum tempo de exposição midiática, provocar, no máximo, apenas bocejos. É preciso deixar de contentarmo-nos em sobreviver, de acreditar que "com a gente não acontece" ou, o que é pior, fazer da vítima o culpado. Recusar a indiferença, persistindo em chamar de acidente uma rotina de mortes e de mutilações, conhecida, anunciada e burocraticamente executada cotidianamente. Nas ruas do Leblon e do Jardim Guanabara, o que aconteceu foi um fato político. E como tal precisa ser combatido.

Como classificar o comportamento dos fascistas de "boa aparência”? Perversão? É pouco. Isto é sordidez, abjeção, cegueira de valores. Mais ainda: é sintoma de uma cultura que faz da sarjeta sua medida moral e que, pouco a pouco, destrói um legado histórico, construído com sacrifício de homens, de povos e de nações. O que está em jogo é a consciência de que a vida é um bem, cuja posse não temos o direito de negar a quem quer que seja. O que estamos esperando? Que a lei da oferta e da procura regule o mercado de massacres e extermínios?

A punição exemplar dos agressores, "gente de boa cepa", é fundamental para que não continuemos a ser uma sociedade moralmente idiotizada. A barbárie não pode continuar satisfazendo o apetite de quem faz do riso cínico a única saída para a impotência e a covardia. Os fascistas têm que saber que já não contam com o "jeitinho brasileiro" de lidar com o direito à vida e a dignidade física e moral de cada um. Do contrário, a certeza da impunidade continuará ampliando a lista de vítimas. Em um país democrático, não se confunde desejo de justiça com direito de vingança.

Vítor Suarez da Cunha, o jovem de 21 anos, que teve 63 pinos implantados no rosto, deu uma magnífica lição de vida, de solidariedade humana. Muitos escreverão sobre sua atitude, mas nenhum texto será capaz de traduzir sua coragem, seu amor ao próximo, sua consciência de cidadania. Ao afirmar que "faria tudo de novo se preciso fosse", torna-se um símbolo de que a luta política não só é possível como conta com bons combatentes.

http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2012/02/21/o-fascismo-dos-meninos-do-rio/

Um comentário:

  1. ulysses freire da paz jr.25 de julho de 2012 16:45

    No fervor de clichês mitomaniacos, da geopolítica do ódio e da desinformação bandidos são venerados e heróis, marginalizados.

    A historiografia presta-se mais para escamotear a história do que para desvendá-la. Os genocídios da Guerra do Paraguai, Canudos, entre outros., espelham a 'cultura da malhação de um Judas' sem ao menos discutí-la. Alterar a nomenclatura de ruas com nomes de militares ou denominações sem qualquer referência com a historiografia da cidade ou do país é resgatar a identidade dos brasileiros que O RASCISMO INTELECTUAL sempre se procurou ocultar, desde a criação de mitos pejorativos como Macunaíma, Jeca Tatu entre outros engodos literários primorosamente apontados por FLÁVIO RENE KOTHE na trilogia dos CÂNONES: (colonial, imperial e republicano)

    O heroísmo deste rapaz é semelhante ao descrito por Lourenço Diféria em 1977 HERÓI MORTO O texto tratava do heroísmo de um sargento que dera sua vida ao pular num poço de ariranhas para salvar um menino que lá havia caído. Em sua defesa ao ato do sargento, em certo momento Diaféria diz: Prefiro esse sargento ao duque de Caxias O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na praça Princesa Isabel onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer oxidou-se no coração do povo O povo está cansado de espadas e cavalos O povo urina nos heróis de pedestal.
    É claro que isso desagradou os militares. Esse fato resultou na sua prisão, além de seu enquadramento na LSN (Lei de Segurança Nacional), pois o conteúdo foi considerado ofensivo às forças armadas.

    O Brasil, precisa urgente abolir logradouros públicos como: PRINCIPE DE GALES...... entre outros cânones literários sem qualquer mérito e importância na construção da identidade nacional, para não incorrer na pior das infidelidades ? a traição à memória dos verdadeiros heróis, até então ou 'marginalizados' ou relegados ao arbítrio e à proscrição.

    "O mecanismo da invisibilidade foi tratado por José Saramago no livro O ensaio sobre a cegueira. Nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, este é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos. Quem não vê, aceita que outros lhe digam como é o mundo."

    O principal aliado dos tiranos é a cultura da aceitação.


    Miserável país aquele que não tem heróis. = ou precisa ocultá-los

    Miserável país aquele que precisa de heróis = dos falsos.

    Brecht Bertolt

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